
Olá, minha gente bicha deste país varonil.
Hoje preciso lhes pedir uma pequena licença poética. E, antes que apareça um gramático de plantão com a sobrancelha arqueada, adianto logo: eu sei perfeitamente que Madame se escreve com um único eme.
Mas há pessoas que simplesmente não cabem dentro da gramática. Há artistas que fazem sucesso. Há artistas que fazem história. E há raríssimas criaturas que mudam a maneira como milhões de pessoas autorizam a si mesmas a existir.
Essas merecem um eme a mais. Por isso, hoje não escreverei Madame. Escreverei Madamme. Com dois emes. Um da Madame. Outro da Madonna. Pois um só “m”, seria pouca reverência.
E antes que alguém pense que estou exagerando, lembro que exagero sempre foi uma das mais deliciosas formas de elegância. Nunca tive vocação para rainha. Rainhas governam reinos. Madames preferem governar boas conversas.
Mas reconheço quando encontro uma soberana. E Madonna sempre foi isso. Não apenas uma rainha. Uma Madamme de marca maior.
Digo que toda Madame tem uma Madamme para chamar de sua rainha. A minha nasceu em Michigan.

Nem toda diva merece esse título. Divas encantam. Rainhas comandam. Estrelas iluminam. Madammes transformam gerações.
- Madamme é quem atravessa décadas sem pedir licença ao tempo.
- Madamme é quem envelhece sem abandonar a curiosidade.
- Madamme é quem muda de roupa, de cabelo, de discurso, de ritmo, mas nunca muda de coragem.
Há quem pense que Madonna ficou famosa porque sabia cantar. Outros dirão que foi porque dançava. Alguns insistirão que foi pela provocação. Todos estarão certos. E, ainda assim, todos estarão incompletos.
Madonna nunca vendeu apenas música. Ela vendeu possibilidade.
- Mostrou às mulheres que podiam ocupar espaços antes reservados aos homens.
- Mostrou às bichas que era possível existir sem pedir desculpas.
- Mostrou aos conservadores que o corpo também fala.
- Mostrou aos artistas que reinvenção não é falta de identidade. É justamente o contrário.
Há quem use salto alto para parecer mais alto. Madonna sempre usou o salto para enxergar mais longe.
Ela nunca teve medo de envelhecer. Teve medo de ficar parada. E permanecer imóvel talvez seja a única forma verdadeira de envelhecer.
Madonna já errou. Já exagerou. Já provocou além da conta. Já dividiu opiniões. Já desconcertou até quem a amava. Mas nunca foi covarde.
E coragem, minhas filhas, costuma ser muito mais elegante do que perfeição.

Vivemos numa época curiosa. Pessoas exigem coerência absoluta de quem dedicou quarenta anos a experimentar o mundo.
Ora… Se alguém passa quarenta anos igualzinho ao primeiro dia, talvez não tenha vivido. Tenha apenas repetido. Madonna nunca repetiu.
Mudou de pele tantas vezes que muita gente confundiu transformação com contradição. Não era. Era crescimento.
Vejo muita gente perguntando por que Madonna continua. Eu devolvo a pergunta: Como alguém que ainda tem curiosidade deixaria de continuar?
- Enquanto houver perguntas, haverá criação.
- Enquanto houver criação, haverá movimento.
- Enquanto houver movimento, haverá Madonna; Haverá Madamme.
Outro dia me perguntaram se ainda fazia sentido esperar por um novo álbum de Madonna. Sorri. Há perguntas que já trazem escondida a resposta.
Confessions II não me interessa apenas porque é Madonna lançando um disco. Interessa-me porque é mais uma prova de que algumas pessoas recusam o luxo da acomodação.
Madammes preferem o trabalho da reinvenção. E isso exige muito mais fôlego do que nostalgia.
Conheço artistas que passaram a vida tentando repetir o maior sucesso. Madonna passou a vida tentando descobrir quem ainda poderia ser. Que desperdício seria permanecer a mesma.
Enquanto muitos transformam a idade numa desculpa para diminuir os próprios sonhos, ela continua transformando idade em matéria-prima para criar. E talvez seja isso que mais me emocione.
Não o brilho. Não os figurinos. Nem os milhões de discos vendidos. Mas a insistência. A coragem de continuar aprendendo.

Porque toda bicha esclarecida sabe de uma coisa: O contrário da juventude nunca foi a velhice. O contrário da juventude é desistir da curiosidade.
Madonna continua curiosa. Por isso continua jovem. Mesmo quando o espelho resolve lembrar outra idade. A beleza muda de roupa. O encanto permanece. E talvez seja justamente aí que nossas vidas se cruzem.
Eu leio cartas. Leio borra de café. Leio pessoas. Madonna nunca precisou de cartas. Ela sempre leu o mundo. Percebeu antes de quase todo mundo que comportamento também pode ser arte.
Que dançar também pode ser discurso. Que um refrão também pode ser manifesto. Que um beijo pode ser política. Que um silêncio pode ser resistência.
Ela puxou orelhas. Calou racistas. Enfrentou machistas. Provocou religiosos. Defendeu minorias. Abriu portas para muita gente. E fez tudo isso sem abandonar aquilo que mais incomoda os autoritários: a inteligência.
Nunca precisou diminuir ninguém para ocupar o próprio espaço. Há uma elegância rara nisso. Uma elegância que não cabe num único eme.
Por isso continuo insistindo. Madonna não é apenas Madame. É uma Madamme.
Os gramáticos que me perdoem. Mas há pessoas que merecem um M a mais. E se algum dia me perguntarem quem foi a Madamme de todas as Madames… Responderei sem consultar cartas. Sem olhar a borra do café. Sem pedir ajuda aos astros. Porque certas respostas dispensam adivinhação. Basta apertar o play.
Madame Jorgina, sua criada.
#FicaLokaMasNãoFicaBurra



